A VIOLÊNCIA
A violência quando passa ao longe não nos assusta nem nos intimida, mas quando ela tira fina da gente, daí nós passamos a compreender e nos identificar com as lágrimas de suas vítimas.
Hoje eu quero falar do Jorge.
A história do Jorge é bem parecida com a minha, nós dois fizemos direito, e como todo estudante de direito, passávamos um tempão discutindo teorias e tudo mais, nossa, como o Jorge gostava de falar, quando abria a boca não parava mais.
Alias, quando eu penso no Jorge, eu penso nele conversando com alguém. Mas o que nós gostávamos mesmo era de fazer planos, de sonhar com nossos futuros brilhantes, nossas carreiras. Ah, como sonhar era bom naquela época.
Bem, nós nos formamos na mesma época e enfrentamos as mesmas mazelas que um bacharél em direito sofre. Passamos concomitantemente pelos famigerados exames da OAB e sentimos na pele o preço da reprovação e do descrédito do povo.
Mas continuamos a lutar, as vítórias rápidas e fenomenais não vieram como a gente sonhava, pois a vida nos ensinou que sucesso só vem antes de trabalho no dicionário, mas nós continuamos trabalhando e conseguimos alguma coisa.
Nossas vidas seguiram rumos diferentes, eu fiquei no interior, ele foi pra capital, como é assim que sempre acontece né, as vezes a gente é tão amigo de alguém por um certo tempo e depois esta pessoa some da sua vida e a gente se encontra em alguns anos, e a vida vai costurando nossos destinos.
Mas o Jorge era um cara legal. Tomamos altas cervejas juntos. Demos algumas risadas. O cara era muito engraçado.
Eu lembro que a última vez que eu encontrei o cara a gente nem conversou direito. Estavamos ambos apressados, apenas nos cumprimentamos e tocamos nossas vidas apressadas.
Na manhã deste domingo o Jorge foi assaltado, atiraram nele e ele não resistiu. O cara estava trabalhando no domingo de manhã. Tantos sonhos, tantas esperanças, tanta fé no futuro, tombaram com a bala do desespero criminoso.
A violência urbana levou meu amigo.
Passa tanta coisa ruim pela cabeça da gente nesta hora.
Um misto de revolta e medo e uma sensação de impotência, sendo que a única coisa que eu pude fazer foi escrever este pobre texto.
Eh Jorge, olhe por nós aí de cima.
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